São João de Aroeras dia 23

Junho registra número recorde de assassinatos de mulheres em Pernambuco


Estatística é o pior resultado mensal desde 2007, quando os crimes começaram a ser contabilizados pela Secretaria de Defesa Social

Éricka Patrícia foi morta dentro de casa, junto com uma vizinha, no mês de junho de 2016, na Zona Norte do Recife / Fernando da Hora/JC Imagem
Éricka Patrícia foi morta dentro de casa, junto com uma vizinha, no mês de junho de 2016, na Zona Norte do Recife
Fernando da Hora/JC Imagem
Ciara Carvalho
ciaracalves@gmail.com
Do quarto, presa à cama, dona Vanda só ouviu os tiros. Ficou paralisada. Gritos, disparos, silêncio. Os assassinos entraram e fugiram pelos fundos da casa. Quando conseguiu chamar a filha, nenhuma resposta. Só ouviu novamente a correria. Parentes gritando e dois corpos crivados. Em um quarto, a filha, Éricka Patrícia de Oliveira e Silva, 39 anos. Na sala, a vizinha Luzinete Cassimiro Cavalcante, 54. Por problemas de saúde, dona Vanda Ribeiro, 69, não consegue andar. Vive praticamente o dia inteiro em cima da cama. Perplexa, acompanhou a tragédia do quarto. Não quis ver a filha morta. “Prefiro guardar a imagem dela sorrindo, feliz.” Éricka e Luzinete foram mortas no dia 27 do mês passado, no Alto Santa Terezinha, na Zona Norte do Recife. Entraram para uma estatística assustadora: o mês de junho contabilizou 37 assassinatos de mulheres no Estado. É o pior registro desde 2007, quando a série histórica começou a ser acompanhada. Em relação ao mesmo mês do ano passado, os dados representam um salto de 76% no número de mortes. Um extermínio para o qual o poder público ainda não tem explicação.

As primeiras semanas de junho já indicavam que a curva seria atípica. Em 15 dias, 16 mortes. Já era, naquele momento, um número maior do que todo o mês de maio, que fechou em 14 assassinatos. Quando comparada a evolução de um mês para o outro, a diferença é alarmante: 160% a mais de casos de homicídio contra a mulher. A média, desde o início do ano, vinha em torno de 20 mortes, por mês. Um número já considerado alto. O sinal vermelho acendeu. As estatísticas deixaram os gestores perplexos. Com os dados nas mãos, a Secretaria Estadual da Mulher levou o problema, na semana passada, para a reunião da câmara técnica do Pacto pela Vida, programa do governo estadual de enfrentamento de todos os crimes de homicídio no Estado. Sob qualquer aspecto, o retrato é preocupante. Considerando o total de assassinatos praticados em Pernambuco em junho (333 mortes), cerca de 10% tiveram mulheres como vítimas.



Dos 37 assassinatos, a maioria aconteceu no Recife (9). Mas em todas as regiões do Estado foram registrados homicídios. Só em Caruaru, no Agreste, houve três mortes. O levantamento aponta que, pelo menos, 15 desses assassinatos foram consequência de violência doméstica, onde as mulheres acabaram mortas por companheiros, ex-companheiros ou parentes próximos. Os outros 22 crimes ainda estão sendo investigados pela polícia. É o caso do assassinato de Éricka e Luzinete. No Alto Santa Terezinha, os moradores preferem não comentar sobre o duplo homicídio. Há suspeitas de que o crime poderia ter relação com o tráfico de drogas ou com um desentendimento entre vizinhos. Assustada, a família diz que não quer ir atrás dos culpados. “Para quê? O pior já aconteceu. Mataram a minha filha. Agora ficou uma ferida dentro de mim, um vazio que não vai passar nunca”, lamenta dona Vanda.
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