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UTIs afastam pacientes terminais das famílias


O assunto é delicado, mas exige conversas entre famílias e profissionais de saúde
 Paulo Trigueiro, da Folha de Pernambuco


Algumas intervenções prolongam o sofrimento do paciente terminal
Não se morre mais como antigamente. A cultura das Unidades de Terapia Intensiva (UTI) transformou a passagem de pacientes terminais em um fim frio, isolado da família, muitas vezes sob intervenções estéreis, que prolongam o sofrimento. A percepção da necessidade de uma boa morte, em contrapartida, apareceu na Europa no fim dos anos 1960 e tornou-se tendência mundial.

O cardiologista Hilton Chaves é diretor de três UTIs na Região Metropolitana do Recife. É especialista em cuidados paliativos. Para ele, é comum os médicos confundirem a perda de um paciente - mesmo sem perspectiva de cura - a um fracasso profissional. “Fere o sentimento de onipotência dele.” Já os familiares precisam entender que os entes queridos não viverão para sempre.

"Muitos pedem que façamos todos os procedimentos existentes, mesmo quando explicamos que não há chance de reversão do quadro. Isso prolonga o sofrimento e a dor do paciente. Tudo tem começo, meio e fim. Quando este último chega, é preciso que seja com dignidade. Quando eu era criança, diziam que uma tia muito idosa estava morrendo e íamos todos à residência dela, para ficarmos juntos. Estão mudando, além do endereço dos óbitos, as pessoas que o acompanham”, relatou.

A presença de pacientes terminais em UTIs tem influências tanto éticas quanto econômicas. "É imoral animar familiares em relação a uma cirurgia que você sabe que não vai dar certo. Precisamos discutir o que é vida e o que é morte", comentou o especialista.

Ainda de acordo com ele, a paliação é frequentemente interpretada como uma espécie de abandono do paciente. “Uma confusão. Porque é justamente o contrário que acontece. É muito mais trabalhoso conhecer verdadeiramente o paciente e entender o que ele precisa para aliviar sua dor emocional, física e espiritual”, explicou.

Paliação em Pernambuco 
Os “cuidados paliativos”, uma assistência compreendendo a dignidade e a qualidade dos últimos momentos de um indivíduo, serão discutidos no auditório do Colégio Vera Cruz às 19h30 do dia 28 deste mês. Hilton Chaves é o organizador da Sessão Científica Cuidados Paliativos. Para ele, é absolutamente necessário que os profissionais de saúde discutam o assunto.

Secretário estadual de Saúde, o oncologista Iran Costa é também especialista em paliação e fala sobre o assunto no evento do dia 28. "O papa João Paulo II escolheu o processo de paliação em 2005, o que aumentou o interesse da sociedade e da comunidade médica mundial no tema.

O Brasil e Pernambuco acompanham a tendência. No Estado, há times de paliação no Hospital do Câncer, no Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc) e no Imip, pioneiro na área", explicou. "Uma grande vontade é criar políticas públicas de abordagem da dor, algo que hoje só existe em países europeus."

No Huoc, uma equipe multidisciplinar formada por médico, psicólogo, enfermeira, terapeuta ocupacional e nutricionista trabalha há três anos exclusivamente com paliação.

Os profissionais visitam pacientes terminais em domicílios em dias alternados, empenhando-se para aliviar sofrimentos não só físicos, mas também emocionais. "Rejeitamos o prolongamento artificial da vida e melhoramos sua qualidade nos pacientes terminais para que tenham uma boa morte, digna", contou a coordenadora da Unidade de Cuidados Paliativos do hospital, Paula Magalhães.

"Ficamos surpresos no início porque tivemos aceitação dos familiares. Nosso curso não nos prepara para darmos a má notícia. Se temos um diálogo franco e aberto, eles comumente nos revelam que o desejo é que o paciente não sofra."

A boa morte 
Parente de consideração de dona Mabel da Cunha, 85, Maria de Lourdes Menezes faleceu em sua casa, sob os cuidados da equipe de paliação do Huoc. "No SUS, ninguém descobria o que ela tinha. Descobriu-se no Huoc que era um câncer no aparelho digestivo, em estado avançado.

Ela queria ficar na minha casa, que ela considerava como dela, e foi onde ficou até seus últimos dias. Tive medo, por não ter conhecimentos de saúde, mas uma equipe maravilhosa vinha aqui. Tenho certeza que Lourdes morreu muito satisfeita tendo a gente junto dela", lembrou Mabel.

No Imip, o serviço funciona há cinco anos. É o primeiro do Estado. Assim como o time do Huoc, vai a domicílio. Além disso, vai a outras áreas de internamento do hospital e tem um ambulatório próprio. De acordo com a criadora do projeto, a oncologista Jurema Telles, a paliação muitas vezes tem mais eficiência que alguns tratamentos.

"Faz viver mais e melhor. Hoje é um serviço essencial. Enxergamos o doente como um todo. Seguimos na contramão da nossa formação. Ela não consegue sair do 'saber médico' e do contexto da doença em si", criticou.

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