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VIOLÊNCIA EM PERNAMBUCO: Série especial, Exército Juvenil, confira relatos de jovens da periferia

 Diário de Pernambuco

Um verdadeiro exército de crianças e adolescentes é recrutado nas comunidades, todos os dias, para lidar com armas, tráfico de drogas e assaltos. Vulnerabilizados por condições de pobreza e desagregação familiar, tornam-se presas fáceis de criminosos. Entram numa jornada às vezes sem volta. Quase 10% dos homicídios ocorridos no estado entre janeiro e abril deste ano vitimaram menores de 18 anos.

São 199 assassinatos de crianças e adolescentes de um total de 2.038 mortes registradas no período, segundo a Secretaria de Defesa Social (SDS). São 69 corpos a mais quando a comparação é feita com os mesmos meses do ano passado.

Outros 480 sobreviventes dessa “guerra” terminaram encaminhados para as unidades da Funase nos dois primeiros meses do ano. O não cumprimento de metas determinadas por traficantes e dívidas de drogas estão por trás da maioria das execuções de crianças e adolescentes em Pernambuco. Não são os únicos motivos. Uma operação da Polícia Civil chamada Escudo da Juventude prendeu, em abril, 24 suspeitos desses crimes, todos ligados ao tráfico nas cidades de Olinda, Paulista e Recife. A vítima mais nova tinha apenas 13 anos.

Uma análise dos assassinatos revela mais: 42% das vítimas têm 17 anos, 93% são do gênero masculino, 51% foram assassinadas à noite ou de madrugada e 96% são pessoas classificadas pela polícia como pardas.

Compreender o contexto das ações violentas praticadas pelos jovens é mais um ponto de partida para uma reflexão sobre o assunto. Marcelo, 16 anos, traficante e assaltante desde os 14, usa o dinheiro do crime para sustentar a mãe e os dois irmãos mais novos. Para ele, ir à escola significa perder clientes no comércio de drogas. Débora, 17, tem celular e computador bons presenteados pela mãe. Luta contra a tentação dos convites para assaltar. Nem sempre vence.

Como pontua Marcelo Pelizzoli, professor do mestrado em direitos humanos da UFPE e coordenador do Espaço de Diálogo e Reparação da UFPE (www.ufpe.br/edr), a violência não é uma questão de caráter moral ou mera irracionalidade, mas um tipo de linguagem. “É um tipo de reação incorporada na forma de organizar as relações de sobrevivência biológica e psicológica e de reconhecimento, pertencimento ao grupo. Tudo que gera exclusão nesses níveis, conectados a pensamentos/imagens, emoções, necessidades, linguagem e sistema de relações, está fadado a encontrar respostas de violência.”

Na outra ponta dessas histórias estão as famílias dos adolescentes, agora mutiladas. Estão sem seus filhos e filhas, distanciados por estarem mergulhados na violência ou por terem sido assassinados. A dor de quem perdeu um ente querido nessas condições tem a mesma intensidade do medo. É um sentimento presente até o fim da vida. Um pavor de reviver toda a violência, de tornar-se alvo. Poucos falam ou mostram o rosto. Alguns evitam até mostrar a foto dos parentes.

Os relatos dos sobreviventes dessa guerra, ontem soldados e hoje autores de um novo olhar sobre a própria vida, são um alento. Auxiliados por uma rede de ajuda humanitária, as histórias de superação são como um chamado para entender que um outro final é possível.

OS SOLDADOS
“Bora, perdeu.
É um assalto!”

Débora surge entre as palafitas. Seu lar desde criança. Naquele trecho da capital pernambucana, os becos sem calçamento ofertam convites tentadores a crianças e adolescentes. Débora, vez por outra, aceita. Tem sido assim desde os 14 anos. Foi quando ela lançou pela primeira vez a frase: “Bora, perdeu. É um assalto!”.

No seu último roubo, a adolescente trouxe o suficiente para fazer a própria festa de aniversário. Acabara de completar 17 anos. A comemoração não vingou. Mataram um parente no mesmo dia. E Débora passou a data simbólica em profunda tristeza. Parte dela vivida em um cemitério.

Débora nunca está só quando decide assaltar. Sempre vai com dois ou três colegas. Geralmente homens. “Da primeira vez, fui com nada na mão. Depois, pegava uma sandália preta e a pessoa pensava que era um revólver e dava os pertences. Também já usei cabo de guarda-chuva. Outro dia fui de faca. Mas nunca roubei de revólver”.

No seu quarto na favela, Débora conta ter celular bom, computador bom. Todos objetos ofertados pela mãe, de quem era filha única até pouco tempo atrás. “Não precisava nem roubar”, diz. Mas os becos chamam, convidam para dar um “pega” na maconha. Fazer uns assaltos. “Meu Deus! Por que faço isso? Falei para minha mãe que esses meninos influenciam muito. Por esses dias veio uma colega de não sei de onde, arribada, dizendo: bora roubar? Tô precisando de dinheiro. Vou não, disse, tenho irmã e mãe. Entrei na minha casa. Falei para minha mãe. Sempre ela pede para eu me afastar. A minha cabeça diz: vai, vai. O coração diz que não. E o amigo diz: vai, vai.”

Débora respira a violência muito de perto. Desde pequena. É assim com a maioria dos moradores da favela onde mora. Sempre assistiu familiares e amigos usando droga, roubando, fazendo “avião” para ganhar R$ 100 por viagem. Já foi flagrada pela polícia, apanhou. Mas algo na fala final da adolescente destoa do cenário. É luz para quem deseja enxergar melhor as entranhas das comunidades carentes. “Tenho vontade de jogar futebol feminino. Alguma coisa que mude minha história. Esse negócio de droga, roubar, pegar coisa de mãe e pai de família que trabalha tanto e a pessoa vende por cem, duzentos reais não dá. Meu sonho também era ser cuidadora de bebê. Toda criança, quero cuidar. Boto pra dormir. Meu sonho é ser cuidadora de criança no hospital.”


Nos quatro primeiros meses do ano, 12 meninas com menos de 18 anos foram assassinadas em Pernambuco. O número representa 6% do total de crianças e adolescentes vítimas de homicídio no período. Parte delas foi morta pelo envolvimento com atos infracionais. Quase todos os mortos (94%) ainda são meninos na mesma faixa etária. “É muito importante pensar a condição da menina. Focar a especificidade. Não podemos nunca deixar de lembrar que elas são duplamente exploradas, ora pelos seus namorados, ora pelos agentes públicos. Muitas entram no mundo do crime para fugir da violência doméstica. Elas podem ter diferentes papeis nesse mundo do crime. Muitas estão em situação de rua e podem assumir até um papel de líder nesse universo. Desse modo, é importante desconstruir o mito de que elas estão à margem do poder do homem ou do adulto”, pontua Humberto Miranda, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e coordenador do Laboratório de História das Infâncias do Nordeste.
“O tempo que eu perco na escola,
deixo de atender clientes na boca”

O encontro com as drogas aconteceu nas escadarias do bairro recifense onde Marcelo mora desde o nascimento. Tinha 14 anos quando começou a observar com mais curiosidade colegas e vizinhos fumando maconha. Via também o movimento de dinheiro, a facilidade de circulação das valiosas notas entre vendedores e compradores do entorpecente. Não demorou para decidir entrar naquele mundo. Hoje tem 16 anos. É traficante de drogas e assaltante de casas lotéricas e mercadinhos. Só não assalta “pai de família”. Porque esse trabalha para sustentar a casa. Não merece ser roubado, justifica.

O levantamento da área a ser assaltada pode durar meses. É preciso saber se há policiais fazendo a segurança dos estabelecimentos. O embate, nesses casos, é mais perigoso. E pode ser evitado. “A gente passa uns meses fitando pra depois ir lá buscar a boa. Nos assaltos, uso armamento para intimidar as vítimas. Tem que usar arma pra não dar errrado. O cara sem arma é um homem sem ataque”, diz.

A arma usada pelo adolescente tem dono. É alugada nas comunidades próximas por valores que variam entre R$ 500 e R$ 800. O preço cobrado vai depender do local a ser assaltado. Na “bolsa de valores” do crime, uma investida na lotérica, por exemplo, vale mais que no mercadinho. “A gente só não pode perder a arma. Se perder, vai ter que pagar”.

Na rotina de Marcelo, assalto é como uma atividade secundária. Chega para somar quando o tráfico de drogas está ruim. “No tráfico a gente pega até R$ 3 mil por dia, mas tem que tirar o dinheiro do dono. Aí a gente ganha R$ 100 por cada bolsa que vende”. O dinheiro, conta o adolescente, é gasto com a mãe e dois irmãos mais jovens que ele. Não há outra renda em casa. O tráfico é o patrão de Marcelo. O sustento da família.

As bocas de fumo têm regras. E Marcelo sabe cada uma delas. O movimento precisa ser rápido. Dinheiro, só trocado. Moedas não são aceitas. “As moedas pesam muito e não dá para demorar dando troco. Por isso o dinheiro tem que vir certo”. O boom do movimento na boca acontece das 18h às 20h. É quando aparecem mais viciados. “Quando a maconha é de boa qualidade, um vai comunicando ao outro. Aí chove gente pra comprar. Cada ‘dola’ custa R$ 10”.

Marcelo tem 1,90 m e uma fala tranquila. Diz pensar em mudar de vida. Sair do tráfico e dos assaltos. Voltar para a escola. Arrumar um emprego. “Mas não tenho nenhuma ajuda. Um emprego é melhor do que viver como eu tô agora. No crime a gente corre risco de ser pego pela polícia, de ser baleado. Mas tem que batalhar do jeito da gente, do jeito que vem dinheiro mais fácil.”

No Brasil, 2.802.258 crianças e adolescentes de 4 a 17 anos estão fora da escola, assim como Marcelo. O dado é da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2015. Segundo o estudo, a exclusão escolar atinge sobretudo meninos e meninas das camadas mais vulneráveis da população. Do total de crianças e adolescentes fora da escola, 53% vivem em casas com renda per capita de até meio salário mínimo.

Um levantamento chamado Educar ou punir? A realidade da internação de adolescentes em unidades socioeducativas de Pernambuco reforça a informação. Cerca de 95% dos adolescentes infratores encaminhados para as unidades socioeducativas no estado não têm acesso à educação nem antes nem após serem inseridos no sistema, apresentando algum índice de atraso escolar. Para Marcelo, por exemplo, estudar é prejuízo. “O tempo que eu perco na escola, deixo de atender clientes na boca”, compara.
“O que ganho no tráfico,
guardo uma parte no meu cofre”


A agilidade é moeda valiosa dentro do esquema de tráfico de drogas. Assim como em qualquer comércio, é a desenvoltura do vendedor que vai definir os ganhos do dia. Não basta somente estar atento à aproximação da Polícia. Quem vende entorpecente precisa correr contra o tempo para atender à clientela. Desde os 14 anos, Artur sabe bem como é essa rotina. Morador da periferia do Recife, o adolescente, agora com 16 anos, diz ser o mais rápido da boca de fumo onde vende maconha. “Quem mais vende lá sou eu. Sou o mais rápido. Tem dia que vendo quatro bolsas com 60 ‘dola’ cada uma. Precisa ser rápido quando está vendendo para a polícia não pegar a gente”, conta.

Diferentemente dos colegas da comunidade, Artur não usa o dinheiro que recebe do tráfico para sustentar a família. Ele tem sonhos. Pretende realizá-los. “Na vida errada, tem que ser assim mesmo, tem que traficar. Se não como é que a pessoa vai ter as coisas? Mas eu penso em trabalhar, casar e formar uma família. Também quero ser cabeleireiro. O que eu ganho no tráfico, guardo uma parte no meu cofre e o resto gasto no brega. Tô juntando dinheiro pra comprar uma moto. Não gosto de carro.”

Os dois anos dedicados à venda da maconha fizeram o adolescente aprender as regras da rua. A família não sabe o que ele faz quando está fora de casa. Matriculado numa escola a 15 minutos de onde mora, Artur quase nunca vai às aulas no horário noturno. Prefere a venda do entorpecente. “Quero sair dessa vida. Já cansei. Já fui ameaçado de morte, fiz muitas coisas erradas. Eu era uma peste. Agora, tô só traficando”. A facilidade em ganhar dinheiro, mesmo correndo perigos, escraviza os jovens vendedores de drogas.

O adolescente explica como é o funcionamento do ponto onde comercializa maconha e crack com mais dois amigos. “A gente vende pelos becos e vielas. Cada um tem seu ponto estratégico. Fica um na entrada do beco, um no final e o que vende fica na metade. Porque se chegar polícia a gente tem como ganhar pinote”, relata. A maconha é o produto preferido dos compradores, mas Artur conta que o crack é o que tem mais saída durante a madrugada. “Vem muita gente de fora do bairro para comprar, mas carro não chega perto de onde a gente fica e o crack não é muito procurado de dia”, explica.

A construção da personalidade de um adolescente autor de atos infracionais surge de uma reunião de fatores, diz o psicólogo Paulo Teixeira, lotado na Coordenadoria da Infância e Juventude do TJPE e nas promotorias de Infância e Juventude da Capital do Ministério Público de Pernambuco. “O envolvimento de adolescentes com as infrações vão desde o contexto social onde estão inseridos até a escola, a ausência do direito à cultura e ao lazer, as relações interpessoais com os amigos, família e as pessoas de referência. Além disso, têm os aspectos da personalidade de cada adolescente. Tudo isso faz parte dessa formação.”
“Estudo à noite.

Durante o dia eu trafico”

Juliano, 17 anos, coloca qualquer tipo de arma na mão para assaltar. Pode ser um revólver ou uma espingarda calibre 12. Seus alvos são estabelecimentos comerciais, como mercadinhos e lotéricas. Estudante de escola pública, o adolescente também trafica drogas na periferia do Recife. “Estudo à noite. Durante o dia eu trafico. De vez em quando, roubo também. Tenho que sustentar minha mãe e minhas irmãs. Não tenho pai. E a vida é essa mesmo. Tem que traficar para sustentar a casa. Minha mãe não trabalha. Recebe somente Bolsa-família.”

No local onde Juliano vende drogas, outros dois amigos de infância fazem o mesmo. Seguem um caminho de difícil retorno. “A gente tenta arrumar um emprego, mas não consegue e acaba indo para o tráfico. Comecei fumando e depois parti logo para vender. Tinha que sustentar a casa e fui para a vida errada”, justifica.

O adolescente diz que pensa em mudar, caso apareça uma oportunidade de emprego. Pode ser qualquer função, conta. Mas Juliano ainda não tirou a Carteira de Trabalho. Tem identidade e CPF. O adolescente também não frequenta a escola com regularidade. O espaço não é atraente para jovens como ele, envolvidos com as cifras convidativas do tráfico.

Um projeto chamado Escola Legal tenta convencer jovens como Juliano a voltarem para a escola. Os adolescentes em conflito com a lei em cumprimento de medida socioeducativa em meio aberto são matriculados automaticamente em uma escola se não estiverem matriculados. Além disso, são inseridos em cursos de qualificação e passam a ser monitorados.

O trabalho é uma parceria de responsabilidades que engloba o Judiciário, o Ministério Público de Pernambuco, a Secretaria de Educação, a sociedade civil organizada, a família do adolescente e a comunidade. “A violência é um problema de todos nós. A partir do momento que se adia uma busca real sobre a solução do problema, a coisa parece que vai piorando. A escola precisa ser respeitada como é a igreja”, diz o juiz titular da 3ª Vara da Infância e Juventude, Paulo Brandão.


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